No passado ano de 2020, na Feira do Livro do Porto, fui alegremente surpreendido por um livro infantil que se chama “Este É o Lobo” de Alexandre Rampazo. Uma bonita obra que vive de um texto muito simples e curto e com ilustrações muito bem conseguidas para o propósito. O livro foi até premiado. Comprei-o logo para o meu filho mais novo. E porque que é que este livro me espantou? Porque aqui o lobo não é mau. Não é mau, mas só o sabemos no fim. A minha primeira leitura foi diabólica sobre o mesmo. Mas quando cheguei ao fim, fiquei mesmo surpreendido com a forma de como o livro acaba. E não, neste livro o lobo não é mau, mas faz-nos pensar que sim. O mesmo aconteceu ao meu filho de 4 anos, que a meio da história já não queria ouvir mais, mas lá se aguentou e no fim ficou a olhar para mim sem conseguir dizer nada. Como tenho dois filhos, tenho uma vasta colecção de histórias infantis e em todos o lobo é mau. Come tudo e todos. Também me recordo de estudar em Antropologia o fenómeno do lobo e dos mitos que se criaram a partir deste animal. É fantástica a dimensão que ele ganhou na literatura sobretudo alimentada pelos mitos. Hoje, temos mais é que os proteger e já a biologia nos explicou que afinal não nos fazem assim tão mal, bem pelo contrário. Depois do lobo, vem outro animal infernizado nos contos infantis, sobretudo moralistas, que é a lebre. A lebre é um animal que até dá pena na literatura infantil, perde sempre, coitada. É claro que é cómico ver o mais forte a perder. Primeiro porque nos cria uma boa forma de terminar um conto, nunca estamos à espera que o herói perca, e quando morre ou perde, dá pena ou é cómico. No caso da lebre é quase sempre cómico e dá-nos uma boa sensação utópica de que os nossos objectivos até são possíveis. É sem dúvida uma forma muito antropocêntrica, esta coisa de diabolizar ou ridicularizar os animais para explicar os nossos pontos fracos como Seres Humanos. No entanto, é uma forma muito importante de nos levar para lugares irreais para pensarmos o real e nas crianças isso funciona muito bem.