As pessoas, regra geral, sofrem muito com a questão do tempo. Uns sofrem pelo tempo que há-de vir e outras pelo tempo que passou. Raramente alguém sofre pelo tempo que está a passar, pensando na coisa como o tempo. Eu sofro com o tempo que há-de vir e talvez por isso fico sem paciência para basculhar o passado de forma a sentir prazer nisso. Não se trata de esquecer o passado, é mais a coisa de viver no passado que me cria alguma urticária. Não me apraz aquela expressão fatídica “ah, dantes é que era”, ou começar a uma frase com o “no meu tempo…”. Pior ainda é quando estamos numa festa e tentamo-nos lembrar de como nos divertimos noutra festa qualquer do nosso passado. É uma prova real da falta de criatividade para celebrarmos a festa em que estamos presentes no momento. Que no dia seguinte nos saia algo do género: “Fonix, ontem foi de arromba, estou cá com uma dor de cabeça!” é uma coisa, outra é a meio da festa, “… e lembraste de como foi há vinte anos, naquele dia que blá blá blá?”. Não me sinto na crise de meia-idade, mas sinto a crise à minha volta. Esta coisa de querer aos 40 anos fazer o mesmo que fazíamos aos 20 ou é estupidez ou falta de criatividade. Sempre gostei muito de celebrar o meu aniversário. Gosto mesmo muito. Nunca deixei de ter aquela curiosidade que temos na infância de “e como será quando eu tiver x anos”. Sempre que completo mais um ano de vida, começa em simultâneo outro. É quase como um reveillion na minha vida. A malta gosta muito de celebrar o Ano Novo, mas celebrar o seu próprio ano novo, nem por isso. “Ai que me sinto velho”, “o tempo passa a correr”, são frases que nunca são usadas na festividade do Ano Novo, mas sim no aniversário e são apenas pensamentos deprimentes para quem vai a meio da sua vida. Se até aos 40 anos tive que aprender a comer, a andar, a escrever e ler, aprender até a viver com os amores e desamores, ou seja, aprender praticamente tudo, agora que estou a meio do meu percurso de vida (segundo a esperança média de vida), o que é que eu conseguirei criar de novo com tudo isto que já aprendi. É com este pensamento que fico sem tempo para olhar para trás, muito menos a meio de uma festarola. Agora já sabem, quando me convidarem para uma festa é para criar mais um momento único nas nossas vidas e que nos marque mais do que qualquer outra festa que possamos ter recordação.