As obras são um empecilho e ninguém gosta delas. As obras das estradas são o maior empecilho. São as que chateiam mais gente num curto (ou longo) espaço de tempo. Não me apetece falar da gestão de obra do ponto de vista do tempo, mas do majestoso aparato que ela cria. Muitas vezes torna-se quase uma instalação artística conceptual, em que poucas vezes conseguimos perceber o que ali se passa. O pior é que nem legendas ou manifestos têm a acompanhar a obra, como acontece nas mais eruditas obras conceptuais dos nossos museus de arte contemporânea ou das bienais. O elemento mais claro do conceptualismo das obras públicas em estradas é a disposição dos sinais de trânsito temporários que nos tentam avisar de que forma temos que contornar a obra ou dar prioridade aos outros veículos, que recebem outros sinais do outro lado da obra. Raramente, muito raramente, encontro mais do que um em cinco sinais de trânsito temporários que faça sentido na sua colocação, quer pela sua ordem, quer pelo seu significado. A coisa é posta e pronto. Já sabemos que há uma obra, agora desvia-te. É basicamente isso. Já tive o prazer de assistir à colocação dos ditos e é um processo muito interessante que passo a explicar. Vai em cima de uma carrinha um trabalhador, que vai passando a outro, que se encontra na via, os sinais pela ordem que estavam dispostos na carrinha. Este último coloca-os na via pública sem sequer olhar ou perceber se era aquele, ou não, o sinal de que precisava para aquele sítio. Criam assim uma carreira de sinais, bastante martelados e usados, e isso já é suficiente para percebermos que há uma obra e que nos temos que desviar. Fácil. O mais interessante disto, é que, como as obras incomodam muita gente, certamente passam lá pessoas ligadas às autoridades, digo eu, e mesmo assim nada parece acontecer. Estou mesmo a imaginar o senhor/a inspector/a a acenar com a cabeça em sentido de reprovação daquela instalação, ou até com cara de estupefacção pela barafunda criada, bem confortável dentro da sua viatura, mas sem nada fazer. Ou talvez isto seja só imaginação minha e o senhor/a inspector/a faça o que a maior parte dos condutores fazem, vê os sinais, percebe que há uma obra e desvia-se. Eu é que sou demasiado observador e ainda por cima me dedico a escrever sobre isto.