A vontade de participar no projeto JanelaAdEntrO já vem dos tempos do estúdio da Vânia Kosta em Braga com as suas magníficas janelas. Quis o universo que eu todavia participasse em toda a glória deste 2020 na minha própria janela. Mas estará correto pensarmos que a nossa janela nos pertence? ... já que a face exterior da janela pertence ao rosto do edifício e essa pertence ao espaço envolvente urbano e aos demais citadinos? Pois bem, esta obra que foi criada para este projeto e esta janela em específico teria portanto de jogar com esta dualidade e estes dois pontos de vista distintos de uma forma que unificasse essa pertença e esses dois mundos separados por esta transparência que é o vidro. O desafio seria então explorar a transparência do vidro e a da obra em si mesma e a solução encontrada foi desenvolver uma obra que possui dois estados. Num primeiro estado a obra apresenta-se como um hermético quadrado branco sob a exposição solar diurna e num segundo estado a obra muda de aparência assim que a iluminação artificial do interior da habitação a altera usando a transparência do seu suporte em papel. Podemos dizer que em parte a obra só existe enquanto a habitação é vivenciada ... mas eu não poderia ficar por aqui. Esta dualidade fez-me recordar do paradoxo de Schrödinger que aborda a existência de um sistema quântico como uma sobreposição da multiplicidade de estados que correspondem respetivamente aos diversos possíveis resultados. Schrödinger propôs no seu artigo essa sobreposição de estados e a interpretação de Copenhague implica que os diversos estados coexistem até que decorra a observação por parte de um sujeito. Nesse momento determinante da observação, um dos estados prevalecerá e os restantes colapsarão. Portanto a obra que é visualizada pelos transeuntes é nada mais do que a caixa fechada que contém o gato de Schrödinger e sempre que inspecionada e visualizada uma alteração ocorre. Esta obra faz parte de um conjunto de três que abordam o perpétuo movimento cíclico "formação - deformação - reformação".