32€ o metro

D’APRES X-PILOT G-TEC-C4
0.4 ballpoint pen on 160gr Fabriano paper
550×23.5cm
2013

32 o metro [www.envidenefelibata.com] 005

Esta obra foi criada para a exposição ‘32€ o metro’ e especificamente para a galeria da Casa da Pedreira em Gondifelos, ao cuidado da Fértil Cultural. A exposição recebeu este título pelo simples facto de coincidir com a celebração do meu 32º aniversário e portanto cada metro linear passou a custar esse valor. ’32€ o metro’ interagiu com o visitante de uma forma pouco convencional e apresentou algumas novidades ao contexto das exposições de arte. Como sempre cultivei a dessacralização da obra de arte e do processo criativo, esta exposição foi mais um exemplo disso. Os visitantes tiveram a possibilidade de adquirir pequenas parcelas da obra por um custo de 0.3196€ por centímetro linear e a adesão foi ótima já que 70% da obra desapareceu na inauguração. De bisturi e calculadoras em mão inaugurou-se a exposição.

Exponho aqui o processo de criação, as dificuldades que surgiram e conclusões obtidas.
A minha intenção foi desenvolver um verdadeiro diário gráfico e segui-lo à letra literalmente. Todavia este exercício nem sempre conseguiu ser realizado diariamente pois teve de ser conciliado com outros projetos e além disso tive de o interromper pela dor que se instalava na minha mão. Mas na sua maioria foi um registo regular de 30cm lineares diários.
Logo nos primeiros momentos apercebi-me que ia precisar de proteger a folha de papel da humidade da minha respiração e da gordura da minha mão. Como ia desenhar neste suporte durante vários dias tive de resolver esta situação urgentemente. Optei por cobrir o suporte com guardanapos sempre que possível e usar uma luva, segundo a apresentada pelo artista Eric Faries, que consiste numa fina luva de algodão onde o polegar, indicar e anelar foram cortados para assegurar o contacto direto com o riscador.
Ainda que só tenha previsto executar 6m iniciei o desenho na folha de papel em rolo com 10m na eventualidade de conseguir superar o projetado, todavia apenas consegui criar 5.5m. A dimensão de 23.5cm de altura foi um compromisso com o tempo disponível para a realização do desenho onde os 5mm serviriam apenas para a fixação da obra na galeria.
Este formato em rolo implicou logo um desconforto na criação do desenho e portanto, sendo dextro, optei por desenhar da esquerda para a direita, desenrolando o rolo à minha esquerda e enrolando à direita. Desta forma não tive desde o início um enorme rolo de papel a incomodar-me e à medida que este ia crescendo foi fácil de me habituar ao mesmo. Por trabalhar num estirador de pequenas dimensões apenas conseguia observar uma parcela com cerca de 50cm de cada vez. Isto levou a algumas distorções nas proporções e estranheza na relação entre elementos gráficos.
Optei por usar a PILOT G-TEC-C4 negra porque sempre quis levar esta esferográfica ao extremo e usar a tinta de uma destas integralmente num único desenho para compreender qual a dimensão que seria capaz de preencher, e neste projeto seria capaz de gastar diversas num único desenho. A primeira esferográfica deixou de funcionar ainda a meio da capacidade da mesma pois não aguentou as alterações de pressão atmosférica numa viagem de avião. As que se seguiram tiveram um destino similar pelo excessivo número de horas de uso contínuo e pela agressividade da textura do papel de 160gr da Fabriano. Por vezes tomava eu a decisão de estrear uma nova esferográfica porque precisava de um traço mais espesso e negro, guardando as anteriores para os mais finos e de detalhe. Se me pedissem para estimar o número de riscadores que gastei diria cinco, sendo que cada um me ofereceu apenas o equivalente a aproximadamente uma folha A3.
Depressa o processo se mecanizou. Terminava cada sessão preparando em linha de contorno a próxima sessão. No dia seguinte, preenchia as figuras definidas anteriormente e assim sucessivamente. Esta mecanização e regularidade frenética inicial trouxe os seus problemas. Ao dedicar-me de tal forma ao desenho, logo fiquei sem conteúdo vivencial a relatar graficamente.
O bloqueio surgiu aos 2m aproximadamente, e a solução encontrada passou pelo distanciamento à obra e a necessidade de vivenciar situações que gerassem conteúdo passível de ser representado. Decidi assumir o bloqueio através do desenho e representá-lo simbolicamente. É óbvia também uma alteração de estilo e técnica, ou mesmo de conteúdo que perdeu em parte as características de diário gráfico para passar a relatar acontecimentos passados ou representar antigos conceitos.
O subtítulo foi selecionado de uma série de títulos propostos pelos visitantes da exposição no dia da inauguração. O atual subtítulo, D’APRES X-PILOT G-TEC-C4, foi atribuído pelo artista plástico Migvel Tepes.

Parabéns! Óptimo desenho. Gostei especialmente da passagem dos pés para as mãos, e da zona dos cogumelos. Continuas talentoso, e isso é óptimo de reparar!
– Miguel Coelho